Pela primeira vez na história, bombeiros franceses enfrentam um ‘pirocúmulo-nimbo’ — fenômeno atmosférico extremo gerado pelo gigantesco incêndio florestal que devasta o sudoeste da França. A informação foi confirmada pelo porta-voz da Federação Nacional dos Bombeiros da França (FNSPF), tenente-coronel Eric Brocardi, em entrevista à AFP.

A formação, também chamada de cumulonimbus flammagenitus, ocorre quando o calor intenso de um incêndio aquece o ar próximo ao solo, fazendo-o subir rapidamente. Esse ar ascendente esfria e se condensa, formando uma nuvem de fogo — uma massa turbulenta capaz de gerar seus próprios ventos, que agravam as chamas. Se a nuvem cresce o suficiente, pode até produzir raios.

Até agora, o fenômeno era observado apenas em regiões propensas a incêndios, como Austrália e América do Norte. A NASA o apelidou de ‘dragão cuspidor de fogo das nuvens’.

Brocardi explicou o mecanismo: ‘O aumento da temperatura do solo no coração do incêndio é tão extremo que o calor intenso sobe em uma coluna, encontrando massas de ar mais frias no topo. Esse contato cria um pirocúmulo-nimbo — ou nuvem de fogo —, infelizmente desprovida de umidade. Essa nuvem de fumaça gera seu próprio sistema climático, fazendo com que tudo em seu caminho entre em combustão espontânea.’

‘Raios se formam dentro da nuvem, atingem as brasas no solo e alimentam ainda mais o fogo’, acrescentou. ‘Produz um som grave e estrondoso. Esse tipo de incêndio ocorre regularmente no Canadá e na Austrália, mas é inédito na França.’

O controle do incêndio é um desafio sem precedentes. ‘Estamos lidando com um fogo dito ‘convectivo’, que cria seus próprios ventos — ventos que mudam de direção constantemente, ao contrário de um incêndio padrão, que se espalha em formato cônico. O resultado é que ele se espalha em todas as direções e desenvolve múltiplas frentes de fogo, tornando a situação completamente imprevisível’, afirmou Brocardi.

‘Não sabemos como o incêndio vai se espalhar; a frente de fogo está mudando o tempo todo. Não podemos combatê-lo diretamente. É um cenário de Davi contra Golias: a ideia é que, em algum momento, encontraremos um ponto fraco e atacaremos ali.’

A salvação, segundo o porta-voz, virá do céu — na forma de chuva, embora precise chover forte por três dias — ou encontrando uma maneira de direcionar o fogo para um local onde ele se extinga sozinho, como o mar.

Sobre as esperanças dos bombeiros, Brocardi foi realista: ‘Chegamos a um ponto de ‘impossibilidade operacional’ que exige aceitar a necessidade de retirada estratégica — compreender e reconhecer uma força natural além do nosso controle. A situação no terreno é defensiva, não ofensiva; é um cenário de guerra, onde estamos sob bombardeio constante e precisamos levar todos a um local seguro.’

‘Percebemos que estamos diante de uma situação em que somos impotentes. No entanto, essa impotência não deixa espaço para desespero. É certo que todos os esforços renderão frutos. Está fora de questão que os bombeiros sintam que seu trabalho em campo é em vão.’

‘Cada ação — defender locais críticos, resgatar animais — dá novo fôlego aos esforços, impulsionados por sua determinação feroz. Há uma força de apoio pronta para substituí-los. No entanto, nem todos os bombeiros da França podem simplesmente convergir para cá, porque o risco existe em todos os lugares. Temos que manter a linha.’

A entrevista foi conduzida pela jornalista Juliette Collen, da AFP, e publicada originalmente pela France 24.