A guerra por talentos na indústria de IA elevou os salários a patamares extraordinários, com pacotes de compensação impensáveis há poucos anos. Segundo o Axios, essa tendência preocupa o CEO da Anthropic, Dario Amodei, que teria expressado receio de que novos talentos estejam vindo pelo dinheiro, e não pela missão.
As declarações soam irônicas, já que a própria Anthropic oferece salários de tirar o fôlego para funções que normalmente pagam muito menos. Uma vaga para líder de marketing de eventos da marca, por exemplo, lista remuneração anual entre US$ 320 mil e US$ 400 mil.
Enquanto isso, o salário médio de planejadores de reuniões, eventos e convenções era de US$ 59,4 mil em maio de 2024, segundo o Bureau of Labor Statistics dos EUA. Ou seja, a Anthropic está oferecendo cerca de seis vezes a média do setor.
A suposta preocupação de Amodei gerou reação imediata nas redes sociais. Um engenheiro de destaque usou o X para apontar a ironia.
‘Se é sobre a missão e não o pagamento, pague abaixo dos principais concorrentes e veja quem entra’, escreveu Gergely Orosz, autor da coluna The Pragmatic Engineer. ‘Não é só sobre dinheiro, claro, mas é um fator importante, dada a riqueza geracional que empresas de IA já criaram para funcionários antigos.’
Funcionários motivados por dinheiro não surpreendem. Segundo o Gallup, em 2025, melhor pagamento e benefícios eram a principal preocupação de quem procurava emprego; 54% dos entrevistados consideraram o salário muito importante ao avaliar uma oferta.
Empregos em IA, em particular, viram os salários dispararem, enquanto as grandes empresas disputam os melhores talentos. A compensação varia conforme localização, senioridade e porte da companhia, mas os valores chegam a seis — às vezes sete — dígitos.
O salário médio de um engenheiro de machine learning varia de US$ 180 mil a US$ 350 mil, segundo a Forbes. Pesquisadores de IA distintos em empresas como OpenAI, Anthropic e Meta podem ultrapassar US$ 1 milhão.
Funcionários também miram acordos ainda mais lucrativos, como equity de assinatura. De acordo com o Axios, alguns pesquisadores buscam participação em empresas como Anthropic ou OpenAI antes de seus potenciais IPOs.
A contradição entre o discurso e a prática da Anthropic expõe um dilema do setor: como atrair talentos em um mercado aquecido sem alimentar a cultura do ‘só pelo dinheiro’? A resposta, ao que parece, ainda não foi encontrada — nem pela empresa que mais prega a segurança em IA.
Enquanto isso, a corrida por cérebros continua, e os números só aumentam. Para quem está de fora, fica a pergunta: será que a missão realmente importa quando o cheque é seis vezes maior que a média?