Aaron Horwath, diretor de operações de IA em uma empresa de tecnologia criativa, observou uma cena reveladora em um trem. Um jovem profissional, de terno e tênis branco sujo, falava ao telefone sobre EBITDA e margens de expansão. Mas, ao desembarcar, tirou da bolsa agulhas de tricô e um novelo de lã rosa: fazia um gorro de inverno para a sobrinha. Ele explicou que queria ‘fazer algo’.

Essa cena, relatada por Horwath em artigo para noemamag.com, ilustra uma tendência crescente entre trabalhadores do conhecimento. Em cafés e bares, profissionais compartilham sonhos de ‘sumir’, ‘morar em uma fazenda’ ou ‘sair da rede’. Não são devaneios, mas visões de fuga carregadas de angústia existencial, uma dúvida fundamental sobre o trabalho e a carreira.

A sensação de que o trabalho do conhecimento é, talvez, inútil, se espalha. A desilusão é contagiosa: um fala, outros concordam, e as conversas inevitavelmente levam a perguntas como: ‘O que estamos fazendo?’ e ‘Qual é o sentido disso tudo?’.

O que diferencia este momento de crises anteriores é a natureza da angústia. Sim, a IA ameaça empregos, mas trabalhadores do conhecimento já enfrentaram recessões, terceirização e automação. A diferença é que as perguntas agora são existenciais, não apenas econômicas. Até executivos bem pagos e seniores, os mais protegidos das turbulências, estão incertos sobre o futuro de suas carreiras.

Alguns podem dizer: ‘bem feito’. Afinal, nos anos 2010, os trabalhadores do conhecimento diziam a todos para aprender a codificar. Durante a pandemia, ficaram em casa enquanto outros arriscavam a saúde. Agora, constroem a IA que ameaça empregos. Mas a pergunta permanece: o que acontece quando uma classe inteira de trabalhadores perde a fé em suas carreiras?

Em 2019, Derek Thompson, em The Atlantic, descreveu o ‘workismo americano’: a busca por realização, comunidade e significado no trabalho, algo que as gerações anteriores encontravam na religião. O trabalho virou uma espécie de fé, onde os mais educados e bem pagos se sentem mais eles mesmos no escritório.

Tradicionalmente, havia as vocações: carreiras desafiadoras, com impacto social, como professores, enfermeiros e bombeiros. Mas os jovens de hoje preferem finanças, consultoria e tecnologia. Esses empregos são competitivos, exigem longas horas e cargas cognitivas pesadas, mas carecem de propósito altruísta.

David Graeber, em ‘Bullshit Jobs’, catalogou trabalhos sem função significativa: apresentações para projetos que nunca saem do papel, debates sobre recursos que ninguém pediu, otimização de anúncios que ninguém vê. O ‘resting and vesting’ e o ‘desenvolvimento orientado a promoção’ são exemplos de como o trabalho pode ser vazio.

O workismo, então, serve para distrair as pessoas do vazio que uma vocação preencheria. É o ‘ópio dos passageiros de trem’. Mas, como a religião, depende da fé sobre a lógica. E se algo ameaçar essa fé? A IA pode ser exatamente isso: um choque que faça os trabalhadores do conhecimento acordarem do feitiço do workismo, sem alternativa financeira viável.

A pergunta que fica é: o que acontece quando uma classe inteira de trabalhadores perde a fé em suas carreiras? A resposta pode ser tão transformadora quanto a própria IA.