Uma nova análise de dados públicos de tráfego marítimo revela um tesouro de criatividade humana: mais de 50 mil nomes de barcos, repletos de trocadilhos náuticos, piadas de duplo sentido e referências a obras de Tolkien, Star Wars e Seinfeld.
O levantamento foi feito pelo site beautifulpublicdata.com, que vasculhou anos de dados da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA). Os nomes foram capturados via transmissores AIS (Sistema de Identificação Automática), presentes em embarcações maiores e comerciais.
Segundo o site, a coleção é um retrato da personalidade dos donos das embarcações. De ‘SEA SLUT II’ a ‘BILBOAT BAGGINS’, os nomes vão de piadas sujas a referências literárias sofisticadas.
Dados e metodologia
O site processou uma amostra de dados de ‘broadcast points’ do Marine Cadastre da NOAA, que capta sinais AIS de estações terrestres ao longo das vias navegáveis dos EUA. De cerca de 150 mil barcos únicos na amostra, apenas 50 mil tinham nomes registrados.
Os dados não são um registro governamental abrangente; muitos barcos não transmitem nome. Ainda assim, a amostra é rica: barcos de recreio representam 43% das embarcações, seguidos por cargueiros (14%), além de pesqueiros, rebocadores, balsas e embarcações militares.
Quem são os donos de barcos nos EUA?
Uma pesquisa da Guarda Costeira dos EUA, citada pelo site, estima que 12% das famílias americanas (cerca de 14,5 milhões) possuíam ou copossuíam um barco de recreio em 2018. O perfil desses donos é majoritariamente branco: 82,9%, contra 0,8% de negros ou afro-americanos.
Manter um barco não é barato: os custos anuais podem variar entre US$ 15 mil e US$ 40 mil. Isso se reflete em nomes como ‘LIQUID ASSETS’, ‘BLUE CHIP III’, ‘PORT FOLIO’ e ‘401(PLAY)’, que parecem saídos da carteira de um gestor de fundos de hedge.
Advogados e juízes também deixam sua marca: ‘LAW DAWG’, ‘PRO BONO’, ‘MOTION GRANTED’, ‘CASE CLOSED’ e ‘OVERRULED’. Já médicos podem escolher ‘CADUCEUS’, ‘SEROTONIN’ ou ‘ENDORFIN’.
Humor e cultura pop
A seção de nomes ‘picantes’ é generosa: ‘NAUTI-BOY’, ‘GET KNOTTY’, ‘LOVE MACHINE 7’, ‘SEA SLUT II’, ‘SCREAMING O’, ‘HOOTER PATROL III’, ‘FRISKY LADY’, ‘THICK CHICK’, ‘WET DREAM’ e ‘WETTER THE BETTER’.
Referências literárias clássicas incluem ‘SANTIAGO’ (Hemingway), ‘GOOD OL SANCHO’ (Dom Quixote), ‘TOM SAWYER’ e ‘HUCK FINN II’ (Mark Twain), ‘RED OCTOBER’ (Tom Clancy), ‘MARLEY’S GHOST’ (Dickens), ‘GRENDEL’ (Beowulf), ‘TIMSHEL’ (Steinbeck), ‘ONEGIN’ (Pushkin) e ‘PRYDWEN’ (Rei Arthur).
O autor do site, fã de Tolkien, destaca ‘GANDALF’, ‘SHADOWFAX’, ‘LADY GALADRIEL II’, ‘RIVENDELL’, ‘ARWEN’, ‘IDRIL’ e a joia da coroa: ‘BILBOAT BAGGINS’.
O cinema também marca presença: ‘NOSTROMO’ (Alien), ‘BELAFONTE’ (The Life Aquatic), ‘BLACK PEARL’ (Piratas do Caribe), ‘A BIGGER BOAT’ (Tubarão), ‘DAS BOOT’, ‘STRANGELOVE’ (Kubrick), ‘INCEPTION’ (Nolan), ‘SPIRITED AWAY’ (Miyazaki), ‘RUBY SLIPPERS’ (Mágico de Oz) e ‘ROSEBUD’ (Cidadão Kane).
A TV não fica atrás: ‘THE TARDIS’ (Doctor Who), ‘MAKE IT SO’ (Star Trek), ‘S.S. MINNOW’ (A Ilha de Gilligan), ‘THE OFFICE’, ‘SEINFELD’ e suas variações como ‘NO SOUP FOR YOU’, ‘SERENITY NOW’ e ‘FESTIVUS’.
Processamento e ferramentas
O site usou um Jupyter notebook em Python para processar os dados, que somam cerca de 300 GB por ano de transmissões AIS. Para categorizar os nomes e construir o navegador interativo, o autor contou com a ajuda do Claude Code, uma ferramenta de IA.
A análise é um exemplo de como dados públicos podem revelar camadas de cultura e humor. O site disponibiliza os dados para download e convida leitores a explorar os 50 mil nomes.
A íntegra do projeto está em beautifulpublicdata.com, com busca por categoria e opção aleatória para ‘ver o que flutua até o topo’.